Viagens do Dragão-Mestre: Prólogo

O Dragão-Mestre é um gigantesco e majestoso deus que voa através de eras e mundos, despedaçando planetas entre as suas garras e queimando oceanos com o seu bafo de fogo. Espaço e tempo não importam para ele, o Dragão-Mestre pode assumir qualquer tamanho e viajar até onde e quando quiser. A sua mente sabe tudo o que se passa em qualquer parte e a sombra da sua presença chega até qualquer criatura no universo. Ele é eterno, imparável e indecifrável.
No seu dorso, homens e mulheres que habitavam os mais diversos mundos por ele destruídos agarram-se e sobrevivem para lá do fim das suas Terras, vivendo talvez mais um dia como nenhum outro na sua vida, atravessando o universo nos instantes do bater das suas asas, talvez testemunhando menos um outro mundo, mais um apocalipse, uma e outra vez, nem sempre tão mau como aquele que fez sumir as suas famílias e as suas casas, mas sempre deixando tudo para trás e mergulhando novamente no nada.


Ela percebeu que todos estavam desorientados, mas o mais desesperado entre eles atirou-se mesmo para o vazio, berrando “Não quero saber! Quero acordar! Quero ir para c…” antes que ela pudesse salvar-lo. Flutuando para cima, o seu corpo implodiu e pulverizou-se naquele instante antes de articular a palavra “casa”. O silêncio que se seguiu mergulhou o resto deles num estado de choque onde as suas fúrias e angústias já não poderiam interromper o que Magdalena tentava explicar.


“Como viram, acordar não é por ali.” disse a pequena mulher vestida só com um grosso roupão vermelho que teria pertencido a alguém muito maior que ela. Magdalena olhou-os com um sorriso quase cruel e quase louco.
Eram seis, menos um, cinco e todos tinham acabado de assistir à total desintegração do seu planeta agarrados ao dorso do Dragão-Mestre.

Este local onde se encontravam não lhes daria qualquer alívio perante a insana realidade da sua situação, mas ali poderiam sobreviver. Na sua presente forma, cada escama do Dragão-Mestre ocupava pelo menos um quarteirão e milhares delas estendiam-se até aos horizontes da sua cauda, da sua cabeça e das suas longas asas. No meio desta visão inimaginável, encontravam-se numa zona onde tinham ar para respirar, peso para os segurar e luz para vislumbrar o vazio. Entre os tons de platina e as texturas de granito que as escamas do Dragão-Mestre apresentavam, um nevoeiro esverdeado iluminava o terreno liso-rochoso e reflectia o céu de um Espaço negro no qual resqícios do seu ex-planeta ainda flutuavam e estrelas distantes pulsavam com um brilho dourado.

     
“Tudo isto é real.” Magdalena acrescentou olhando para trás onde os seus três companheiros já se haviam sentado naquele chão estranho sem mostrarem qualquer interesse em aturar os ataques de pânico dos sobreviventes recém-chegados.


Cada um deles também havia passado pelo mesmo há vários anos atrás, todos já tinham testemunhado esta mesma situação dezenas de vezes e dispensavam uma repetição daquilo que era um espetáculo deprimente. Matias chamava-lhe as “suicidolimpíadas” e chegou mesmo a fazer apostas sobre quem se matava mais depressa até Magdalena descobrir a brincadeira e ter jurado nunca mais falar com ele. Juca chamava-lhe “o último fecha a porta”, mas, entre os quatro, era aquele que menos usava o seu sentido de humor para se proteger destas cenas angustiantes. Brigitte chamava-lhe “menos bocas para alimentar”, pois era sempre ela que se encarregava de arranjar comida e de até cozinhá-la quando conseguiam fazer uma fogueira. Magdalena chamava-lhe “a estupidez humana é a mesma em qualquer parte do universo”, um comentário que poderia não só se dirigir necessariamente aos recém-chegados, mas também a Matias.


“Aliás, será normal vocês não conseguirem dormir durante uns tempos, por isso é bom que se habituem a esta realidade.” disse Magdalena olhando de volta para os cinco sobrevientes que restavam e fazendo um brusco gesto impaciente para se sentarem com ela junto dos outros três.


“Onde estamos?” um deles conseguiu dizer ainda pálido e imóvel.


“Não sei ao certo, mas não são os primeiros nem serão os últimos a vir aqui parar.” - respondeu Magdalena sentando-se com um pesado suspiro - “E sempre lhe chamaram Dragão-Mestre, por isso não digam que eu estou maluca. É um nome como qualquer outro, como as histórias de criança, as lendas que sempre nos ajudaram a fazer sentido do que se passa à nossa volta.”


Os cinco olharam-se mutuamente e enfim sentaram-se próximo da fogueira que Brigitte tentava acender com a ajuda de Matias. Neste momento, a superfície desta enorme escama era de um bizarro granito polido com veias verdes fluorescentes que pareciam aquecer-lo e tornar-lo mais macio. Era um chão duro e resistente ao fogo, mas quase confortável. O silêncio tornara-se menos assustador. Um deles acabou por perguntar:


“Que tipo de histórias?”

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«Ao décimo minuto da décima hora do décimo dia do décimo mês do décimo ano deste milénio, o Dragão-Mestre destruirá o teu mundo!»